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Prof. Guilherme Gitahy de Figueiredo
Universidade do Estado do Amazonas

Certa vez escutei de um colega de Brasília que a universidade nos separa, nos isola. Esse comentário é sintoma do papel do ensino universitário enquanto instrumento de segregação social e defesa dos privilégios das elites, realidade mais evidente nos "grandes centros". Pierre Bourdieu, analisando a forma como a universidade ordena a sociedade em sua obra "Razões Práticas", compara suas formas de seleção e titulação às maneiras como na Idade Média européia os filhos da aristocracia eram sagrados nobres. A universidade faz hoje, em nome da Ciência, o que antes a Igreja fazia em nome de Deus. Segundo Ivan Illich, em "Sociedade Sem Escolas", o ensino na sociedade moderna ao mesmo tempo impõem os valores das elites e retira a legitimidade dos outros saberes existentes. O educando de origem popular é iniciado nos saberes dominantes, mas sempre estará em desvantagem competitiva, uma vez que seus próprios saberes e valores são desclassificados.

Mas não precisa ser assim, e um grande exemplo vem da sabedoria popular que se insinua em nossas salas de aula de Tefé! Certa vez uma aluna me deu uma grande lição de moral: não foi fácil, pois diante de tamanha ignorância do "mestre" formado em Campinas ela precisou se valer da contundência de uma dramatização. Levantou-se da cadeira e, diante de alunos divididos quanto à pertinência daquela cena, representou uma situação vivida pouco antes por ambos: a aluna pediu uma informação e o professor, em cima da hora para dar aula a outra turma, agiu de forma impessoal, passando rapidamente e apenas assinalando que naquele momento não tinha tempo. A aluna se sentiu humilhada com o que considerou falta de modos do professor, que deveria ter sido mais atencioso, mesmo que fosse apenas para explicar a pressa. A situação, típica nas relações entre professores e alunos (com a massificação do ensino!) acabou, porém, por se revelar expressiva de um choque de valores da maior importância.

O "desenvolvimento" dominante, que vem se impondo ao país sobretudo a partir de São Paulo, traz uma ética implacável do trabalho: todos devem trocar suas almas por suas profissões, e assim merecer o acesso à autoridade e ao consumo pertinente a cada categoria. O trabalho deve ser impessoal, ou seja, não deve apenas ser o maior de todos os valores, como deve banir quaisquer práticas ligadas aos valores da família, do amor, da amizade, da solidariedade comunitária ou qualquer outra que possa reduzir a produtividade econômica ou a eficiência organizacional. A impessoalidade garante ainda a segregação entre classes, reduzindo ao contato estritamente profissional a interação entre elas. Os grupos sociais passam a ter funções utilitárias uns para os outros, garantindo a fria reprodução da exploração e do autoritarismo voltados à máxima expansão econômica.

De todas essas coisas comecei a tomar consciência após a lição de moral de minha aluna. Notei que ser impessoal no trabalho em Tefé não é apenas ser antipático. É ser mal educado, imoral. O trabalho não pode estar "purificado" da amizade, do amor e da solidariedade, valores que garantem um mínimo de igualdade e diálogo entre todos os grupos sociais. Deve ter mais da "informalidade" na relação entre os indivíduos que Norbert Elias, em "Os Alemães", atribui a sociedades mais igualitárias. Talvez por isso, em Tefé, estejamos mais próximos da construção de uma universidade que ao invés de separar nos una, na tecedura de um Brasil verdadeiramente democrático. Saberes como este não podem ficar restritos à nossa região. Devem ser fonte para novas pedagogias e teorias da sociedade, cultura ou economia. Precisam ser difundidos, e com urgência, para regiões carentes de solidariedade como São Paulo e Brasília.


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